“O que a ciência sabe é que não sabe como funciona o vírus e como o parar”

O sociólogo e pesquisador António Pedro Dores, professor do Instituto Universitário de Lisboa, em Portugal, não poupa as palavras para analisar a Covid-19. Sua visão pode parecer extremamente pessimista, mas, na realidade, chama a uma profunda reflexão sobre tudo o que envolve a pandemia, das causas às consequências. O professor questiona o papel atual da educação e da ciência e diz que os estados de todo o mundo que pararam a economia para salvar vidas o fizeram por medo da reação das populações ao perceberem a fragilidade das organizações institucionais.

António Pedro Dores é um dos palestrantes do II Congresso Internacional de Direitos Humanos, promovido pelo Centro Universitário Social da Bahia (UNISBA) nos dias 15, 16 e 17 de outubro, com transmissão on-line gratuita. O tema do evento é o Direito à Saúde. O sociólogo faz palestra no dia 16, às 9 horas da manhã.

UNISBA: Qual a principal reflexão que o senhor faz neste momento sobre a pandemia?

A pandemia não acontece fora de um contexto geral de aceleração de problemas globais e de incapacidade radical de os resolver. Há um desinteresse dos poderes públicos pela prevenção das doenças, do aquecimento global, do neonazifascismo; ao lado da degeneração da democracia, da ganância financeira, das misérias dos populares, dos abusos de poder contra as populações. Perante tantas dificuldades, o último reduto de esperança para resgatar o futuro costuma ser a educação das novas gerações e a ciência inovadora.

A pergunta que quero fazer é esta: e se a principal causa da nossa apatia impotente, como sociedades humanas entretidas em disputas fratricidas em vez de cuidar de tratar dos problemas, for os hábitos adquiridos através da veiculação da crença de a educação e a ciência nos poderem ser úteis, quando são uma das fontes dos nossos problemas? E se for a nossa educação que nos separa emocional e cognitivamente da natureza que nos dá a ideia inconsciente e dominante de que a nossa missão é explorar a Terra até sempre, indefinidamente? E se for a nossa educação que nos vicia no poder, que nos obriga a não chorar ou recuar, pois isso seria dar parte de fraco e passar a ser menos que humano?

UNISBA: Esperou-se mais da ciência do que ela pode dar?

Hoje, a ciência é utilizada como escudo para fingir que alguém sabe como tratar a pandemia – o que a ciência sabe é que não sabe como funciona o vírus e como o parar.

Dada a educação recebida nas escolas e a ideia que as universidades e a ciência dão de si mesmas, as populações pensam que a ciência oferece respostas pré-fabricadas a qualquer problema, como fazem os bruxos. Escolas e universidades, ao invés, deveriam ter-nos ensinado que as ciências servem para fazer perguntas inspiradoras, que nos possam conduzir a ação, em vez de nos conduzir à impotência e desespero.

São as pessoas, as populações, que vão sofrer e resolver a pandemia. Os cientistas profissionais estão praticamente todos mobilizados para satisfazer as empresas que os contratam, financiadas pelos estados, para descobrir uma vacina que dê lucros fabulosos à custa do medo. Os povos deveriam pressionar os governos para inverterem o atual crescimento das desigualdades sociais e, sobretudo, abolir a miséria, pois isso é a melhor medida de saúde pública, para prevenir a COVID-19 e todas as outras doenças.

UNISBA: Qual o maior erro cometido no enfrentamento da pandemia? Houve algum acerto?

O maior erro é acreditar que quem tem conduzido a vida das sociedades sem nenhuma preocupação de prevenção dos desastres naturais, financeiros, políticos, da saúde das pessoas, teria parado a economia para salvar vidas. O que acontece é que os estados de todo o mundo estão com medo da reação das pessoas quando estas perceberem a fragilidade da atual organização institucional. Por isso, os políticos se dividem entre os que dizem que é preciso disciplina, mesmo que a economia pare, e os que dizem que é preciso que a economia continue a funcionar, mesmo que a pandemia esteja aí.

O maior erro é, portanto, o pânico que está instalado globalmente e está a paralisar as instituições. Tal paralisação, não é por causa da COVID-19. A doença foi a gota de água.

Até agora, não vislumbro nenhum acerto que possa dar esperança.

UNISBA: Devemos então nos preocupar ainda mais com a “segunda onda” da pandemia?

A segunda onda da pandemia, ao contrário da primeira, tem sido acompanhada por protestos populares inorgânicos. Os riscos de saúde e de vida – para as pessoas doentes de outras doenças que não a COVID-19, para as pessoas que ficaram sem emprego e sem habitação, para as pessoas que estão a viver doenças mentais decorrentes dos modos de vida confinados – estão a concretizar-se. A esperança de haver políticas preventivas não existe. As disputas políticas são cada vez mais agressivas. Os profissionais de saúde e dos outros setores vitais para a sobrevivência das cidades, a quem agradecemos os sacrifícios, não estão disponíveis outra vez a morrer pela desorganização dos seus serviços a respeito da proteção da sua saúde.

 

ANTÓNIO PEDRO DORES

Possui licenciatura e doutorado em Sociologia pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa.

(ISCTE-IUL, Portugal). É professor agregado do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa (Portugal) e investigador do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia, Política e Cidadania, onde desenvolve uma epistemologia da sociologia da instabilidade, lidando com as naturezas sociais inerentes aos humanos a partir da interface da

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